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Correr na Cidade

Superação: Estamos a entrar no exagero?

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Por Tiago Portugal:

 

O fenómeno da corrida veio para ficar, seja em estrada ou nos trilhos, são cada vez mais os portugueses que se deixam conquistar por este desporto. Ao longo do meu trajeto de comboio para o trabalho e vice-versa (Estoril-Lisboa) vejo com satisfação cada vez mais praticantes desta modalidade. Cais-do-Sodré, Alcântara, Belém, Algés, Oeiras, são alguns dos locais onde consigo observar muitos corredores. Se o ano passado, 2014, quase que podia contar com os dedos de duas mãos os que vislumbrava a correr logo pela manhã, hoje perco-me na contagem, e é curioso mas vejo mais mulheres do que homens.    

 

De igual forma, as provas de atletismo multiplicam-se, quase todos os fins-de-semana existem pelo menos 2 a 4 provas, divididas entre estrada e trilhos, quando não são mais. O cardápio de provas continua a crescer e a diversidade também. Estará para breve uma Spartan Race em Portugal? A oferta é muita e variada e acompanha o crescimento contínuo da procura. Talvez em 2016 uma prova de corrida que vá desde o Algarve ao Norte, 560Km, Portugal de lés a lés, fica a ideia. Acho que pelo menos durante mais uns 2 anos será assim, e vocês o que acham?

 

Mas todo este crescimento suscita-me algumas dúvidas.

 

Quantas destas provas ainda existirão daqui a 2/3 anos? Se algumas organizações são competentes e as provas bem planeadas e estruturadas  também existem muitas outras que tem como único objetivo a componente financeira, sem se preocuparem muito com os atletas e o aspeto lúdico, chegando a colocar em alguns casos a própria segurança dos participantes.

 

Logicamente que o tempo fará uma triagem e existirá uma seleção natural entre as que perdurarão e as que não passarão da 1.ª edição.

 

A segunda questão é a quantidade de pessoas que sem a devida condição física ou a correta preparação se inscrevem em provas, sejam elas de 10k, meias-maratonas, maratonas ou mesmo ultramaratonas. Poderei ter uma ideia preconcebida errada mas acho que correr há seis meses 2 a 3 vezes por semana e ir correr uma maratona não é o mais correto. Não serei o indivíduo mais indicado para abordar este tema, mas cada vez vejo mais pessoas que após vários anos de sedentarismo e de terem começado a correr há 2/3 meses já querem estar a correr provas de 10k ou meias-maratonas e o resultado pode ser desastroso.

 

Qual o tempo necessário de preparação para uma correr uma prova de 10k ou uma meia-maratona? E qual o tempo mínimo de preparação para correr uma maratona? 

 

A minha última preocupação é também ela uma reflexão pessoal, ando eu a exagerar? Será que querer participar em provas de 100k faz bem à saúde? Quais os riscos para a minha saúde de um grande volume de treinos e uma carga intensa? Qual o limite entre o saudável e o exagero?

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Penso muitas vezes numa frase que um grande senhor da corrida me disse, “não vale a pena querer fazer tudo de uma só vez, as provas estão lá para o ano, se não estiverem é porque não eram boas.” Acho que saboreio pouco as minhas vitórias e os meus feitos, pequenos ou grandes, não interessa, são os meus. Acabo um desafio e procuro um novo. Faço 60km e no mês a seguir já quero correr 70km. Estarei certo? Provavelmente não, mas também sei que não ando sozinho neste caminho. Quantas vezes dizemos em tom de brincadeira "Em caso de dúvida vamos à prova grande". 

 

Talvez deva começar a valorizar mais as minhas pequenas conquistas, a ficar contente com a minha evolução, a não desejar tudo para hoje e a aprender a esperar para alcançar resultados sólidos e duradouros. Não queimar etapas. Mas é díficil, inconcientemente somos todos um pouco pressionados com os feitos e as conquistas dos nossos amigos, pelo feed de notícias que lemos quase diariamente. Se eles conseguem por que razão também não irei eu conseguir?

 

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As organizações das provas estão atentas a este fenómeno e estão a aumentar a distância das provas e o grau de dificuldade das mesmas, cada vez mais longas, maior desnível e com maior dificuldade técnica. Conto no calendário de 2015, 9 provas com distâncias de 100 ou mais km, além de muitas outras com mais de 60km. Onde muitos dos participantes são os mesmos.

 

Até onde iremos? Qual o limite físico do corpo humano?

 

Ficam as minhas dúvidas.

 

Boas corridas,  

2 comentários

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    Filipe Gil

    13.05.15

    Viva Vítor,
    Aceitamos sempre comentários e críticas no Correr na Cidade. A não ser que fosse de ordem política, religiosa ou racista. O seu comentário é bem vindo.

    Quem o escreve, sou eu Filipe, o tal que fez os 53km do Ultra do Piódão, a maior parte deles em dor. Para escalarecer, antes da prova, tomei um Voltaren, a meio da manhã tomei um Brufene, à tarde outro Voltaren e no final ouro Brufene. Foi a unica forma de conseguir aguentar as dores que tinha.

    E é uma verdadeira estupidez. Que não aconselho ninguém a fazer. Comigo não teve efeitos contrários, mas podia acontecer com outros. Mas no meu texto, escrito ainda com suor e lágrimas, tentei partilhar o que passei, nunca aconselhei a fazerem-no. Aliás, o custo dessa corrida leva-me a mais de mês e meio se treinar.

    Contudo, quando estava a fazer a prova sabia que isso podia acontecer. Foi uma estupidez pegada mas foi a minha estupidez. Tinha colocado esse objetivo. Por duas vezes pensei em desistir. Mas depois pensava na minha família, nos meus colegas de crew, naqueles que abdicaram da sua prova para me estarem a acompanhar, nos meses de preparação e decidi continuar. Fui continuando. Pensei que terminava aos 20, depois pensava que isso acontecesse aos 30 e acabei por chegar ao fim. Não provei nada a ninguém a não ser a mim mesmo que era suficientemente resiliênte em fazê-lo. E fiz. Podia ser 53km ou outra coisa qualquer. Tem a ver comigo.

    De resto nunca foi minha intenção influenciar ninguém a fazer o mesmo. Ainda hoje continuo a dizer que o fazia de novo, apesar de ainda estar lesionado. Mas não o aconselho ninguém a fazê-lo. Estou certo que numa próxima ultra, se tal me acontecer, desisto assim que o corpo me pedir. Mas aquela, no Piódão, tinha que ser. Tal como referi antes, foi uma coisa minha, muito pessoal. Sem querer provar nada a ninguém. Aliás, nunca o fazemos com as nossas crónicas.

    Abraço, boas corridas e obrigado por nos ler.

    Filipe Gil
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