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Correr na Cidade

Entrevista de Carlos Sá ao Jornal i



20130720-144734.jpgCarlos Sá."O mexicano disse-me: Carlos, estás muito forte. Vai tu"Por Cátia Bruno/JornalPublicado em 20 Jul 2013Esteve lado a lado com o mexicano Oswaldo Lopez no Vale da Morte. A 40 quilómetros do fim, seguiu sozinho para a vitóriaAos 39 anos, Carlos Sá terminou em 24 horas, 38 minutos e 26 segundos a Badwater, considerada a ultramaratona mais dura do mundo. Esta semana, e ainda no deserto, o homem de Barcelos falou com o i ao telefone. Na sua voz baixa e calma, quase que para poupar energias, recordou a adolescência, a carreira nas ultramaratonas e a prova na Califórnia.O seu objectivo era terminar a prova dentro da casa das 24 horas, certo?Sim sim, sem dúvida. Digamos que essa era uma meta bastante audaz. Conseguir terminar a prova já era muito bom, conseguir fazê-la na casa das 24 horas era fascinante. E isso permitia-me provavelmente um lugar nos 10 primeiros. Este ano a prova foi muito dura, acabámos por ter temperaturas muito altas e ventos muito fortes e isto fez com que os tempos finais fossem bastante altos. Falando com atletas muito experientes, como o Dean Karnazes, ele dizia que das 10 participações dele, esta foi a segunda pior, devido às condições climatéricas.E preparou-se para isso levando uma equipa para o acompanhar em prova.Sim, nós para uma prova deste género somos obrigados a ter uma equipa de apoio. Uma das pessoas ia sempre ao meu lado, a correr comigo, banhando-me completamente com água fresca para que a temperatura corporal consiga baixar. Para as pessoas terem a noção, nós temos uma temperatura corporal média de 36, 37 graus. Quando ela passa para os 38, 39, nós ficamos doentes, não é? Se estamos num local onde a temperatura ambiente está na casa dos 50 graus, é normal que o nosso corpo não tenha capacidade para dissipar esse mesmo calor. Eu acabo por ser a face visível desta vitória, mas por trás desta vitória está esta equipa e ela é deles também. Estou-lhes eternamente grato e nunca mais irei esquecer estes momentos.Falou nas temperaturas de 38 graus? O Carlos corre "doente", portanto. É preciso uma predisposição que nem toda a gente tem, não é?Exactamente. Faço minhas as palavras do Dean Karnazes. Quando ele venceu perguntaram-lhe se estava radiante por ter vencido. Ele respondeu que não venceu, foi o que sobreviveu mais rápido. E é um pouco isto [risos].Diz no seu site que começou por fazer atletismo aos 12 anos e que era fã do Carlos Lopes. Com o decorrer da vida acabou por ter de abandonar?Sim e já nessa altura tive de fazer grandes sacrifícios que me deram alguma resistência para hoje. Eu recordo-me que trabalhava de dia, estudava de noite, saía às 11 e meia da noite da escola e o meu irmão trazia a mochila na mota dele e eu vinha a correr para casa. Acabava o meu treino à meia noite e meia e no dia seguinte às seis e meia da manhã já estava a trabalhar. E estamos a falar duma criança com 14, 15, 16 anos, mas eu fazia aquilo com todo o gosto e com toda a energia que na altura tinha. Só que quando tentamos fazer tudo, acabamos por não fazer nada bem feito. Nessa altura não se dava o devido valor ao desporto, era praticamente impossível seguir isso. Mesmo o Carlos Lopes tinha um pequeno apoio do Sporting, só.Li que seguiu este caminho do ultra- -running depois de ser despedido. Foi mesmo assim?Eu toda a vida trabalhei no têxtil, desde os 13 anos. Eu sou do vale do Cávado e do Ave e toda a gente lá trabalhava no têxtil. O mercado chinês acabou por abafar o têxtil português e as empresas foram caindo em cadeia. Fui de empresa em empresa e comecei a perceber "Bem, a minha idade está a passar e vai cair tudo em castelo. Daqui a 10 ou 15 anos estou demasiado novo para a reforma e demasiado velho para o trabalho. Tenho de arranjar um outro emprego, mudar de vida." Já nessa altura eu fazia montanhismo e pensei em aproveitar aquilo que sei fazer e transpor isso para o trabalho. Comecei a fazer trabalhos verticais, que é andar pendurado nos prédios a limpar edifícios, remodelar, pintar. Só que com a crise no imobiliário essas empresas começaram também a falir e comecei a não ter trabalho. Fiquei outra vez na mesma situação e pensei "Em que é que eu sou bom? O que é que eu gosto de fazer? É correr." Mas não havia historial nenhum de que um ultramaratonista pudesse sobreviver disto. Mas eu acreditei muito nisso e tive a sorte da Outdoor acreditar também e dar-me condições para que eu pudesse dedicar-me a este desporto de que gosto.E não foi só uma mudança de emprego. Deixou de fumar, emagreceu?É absolutamente extraordinário. Passar de uma pessoa completamente sedentária, com excesso de peso, para um dos atletas mais resistentes do mundo. É completamente o oposto!E depois de cinco anos dedicados a isto, foi o melhor atleta não-africano na Maratona das Areias e bateu o recorde na subida ao Monte Aconcágua. Isto com 37, 38, 39 anos.Eu comecei a olhar para as ultramaratonas com mais atenção a partir do momento em que vejo um senhor italiano, Marco Olmo, a ganhar a prova de referência que é o Trail du Mont Blanc aos 58 anos. Se é possível pessoas com 58 anos fazerem-no, então eu com 40 - 36 na altura -, sou demasiado novo para ter dúvidas.Quando subiu ao Aconcágua e depois recebeu a acta de registo e os parabéns dos guardas foi um momento especial?Foi um misto de alegria e de alguma insatisfação, porque eu queria fazer mais e melhor. Fui ali apanhado por uma tempestade que fez com que tivesse feito um tempo pior do que aquele que eu achava que tinha capacidade para fazer. Mas mesmo assim foi extraordinário em menos de uma semana conseguir fazer duas tentativas e ter uma com sucesso.Não me diga que vai voltar a tentar?Tenho outros [objectivos] em mente, como o Cho Oyu, a sexta montanha mais alta do mundo. São 8200 metros onde temos menos de 30% de oxigénio. Prefiro investir a minha energia num novo projecto do que estar aqui a tentar bater os meus próprios recordes.De volta a Badwater, parou alguma vez ou foram mesmo 24 horas sempre a andar?Parei apenas uma única vez para ser assistido, tive de pôr umas gotas nos olhos. Mas parei 30, 40 segundos no máximo. De resto foi sempre a andar e... Nós temos de vencer cinco mil metros de desnível. Isto é o equivalente a subir cinco vezes da Covilhã à Torre. Imagine o esforço que é, esta distância mais cinco vezes aquelas subidas enormes que vemos os ciclistas a fazer!O que é que se pensa quando se está a a fazer uma prova destas? Pensa em algo ou naquele momento só quer dar um passo a seguir ao outro?No fundo é um pouco isso, um passo a seguir ao outro, e não temos muito tempo para pensar noutras coisas. Temos de estar muito concentrados no nosso corpo, temos a equipa de apoio sempre incansável a perguntar "O que é que precisas agora?" É tão intenso que nós nunca estamos sós e nunca temos grande espaço para estarmos ali a meditar, como acontece por vezes nas provas em montanha em que corremos horas e horas sozinhos sem ver ninguém. Esta prova é muito diferente. Acaba por ajudar também a quebrar a monotonia daquelas rectas infindáveis, que ao fim de quatro horas a correr parece que estamos no mesmo sítio, não é?O próximo objectivo é ir à Ultramaratona do Monte Branco outra vez?Sim. É já daqui a 39 dias, portanto a partir de amanhã [sexta-feira] começa uma nova preparação para essa prova mítica. Depois, no final de Novembro, vou à Patagonia Run fazer os 100 quilómetros.Tem uma história impressionante no Monte Branco que aconteceu o ano passado, quando parou para ajudar um espanhol. Os espanhóis ficaram muito sensibilizados com isso?Não só os espanhóis, mas toda a comunidade de ultramaratonistas. Recordo-me que na altura o mais evidenciado foi esse pormenor de eu ter parado e provavelmente perdido o pódio para ajudar esse meu colega. Se eu não apareço entretanto ele tinha perdido a vida, porque já estava em hipotermia grave. Mas não procuro aqui protagonismo, as coisas acontecem no momento. Mesmo aqui na Badwater, tanto eu como o mexicano corremos a noite toda e partilhámos comida, partilhámos as equipas de apoio. Cria--se uma amizade. Nós não corremos contra ninguém, corremos contra nós próprios e no final vence o mais forte. E foi o que aconteceu, o próprio mexicano disse "Carlos, estás muito forte, vai tu, porque eu não consigo acompanhar o teu ritmo". Ele tomou essa iniciativa de me mandar e foi a partir daí que me destaquei. O atleta vencedor ganha aquela medalha que vocês viram na fotografia, não recebe qualquer benefício monetário, portanto é o desporto no estado puro e cria-se este clima de amizade entre todos. Isto é uma luta pessoal, nada mais.É um desporto especial? Como as pessoas estão a pôr a vida em risco, dá-se menos importância àquela competitividade mais? mesquinha?Exactamente, exactamente. Eu costumo dar este exemplo: as pessoas vão na estrada a correr a maratona e vêem que um colega cai. Viram-se para trás e perguntam "Estás bem?", mas continuam a correr, não param. Nós se vemos alguém a cair paramos logo e ajudamos, estamos preocupados a ver se se aleijou ou não. O objectivo competitivo está sempre em segundo plano. Como eu dizia no início, terminar uma prova destas já é fantástico, terminar em primeiro com certeza que mais ainda.

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